arqui]vos de antropo[logia

[D 5a, –]

[D 5a, 1]

Sobre L’Eternité par les Astres: Blanqui, que à beira do túmulo sabe que o Fort Du Taureau será sua derradeira prisão, escreve este livro para abrir a si mesmo as portas de novos cárceres.


[D 5a, 2]

Sobre L’Eternité par les Astres: Blanqui submete-se à sociedade burguesa. Mas cai de joelhos diante dela com tanta força que o trono começa a balançar.


[D 5a, 3]

Sobre L’Eternité par les Astres: neste texto está disposto o céu no qual os homens do século XIX vêem as estrelas.


[D 5a, 4]

A figura de Blanqui talvez esteja presente nas “Litanias de Satanás” (Baudelaire, Œuvres, ed. Le Dantec, vol. I, Paris, 1931, p. 138): “Tu que diriges aos proscritos esse olhar calmo e altivo.” De fato, existe um desenho feito de memória por Baudelaire, representando a cabeça de Blanqui.


[D 5a, 5]

Para entender o significado da nouveauté, é preciso retornar à novidade na vida cotidiana. Por que todo o mundo comunica as últimas novidades aos outros? Provavelmente para triunfar sobre os mortos. Isto apenas quando não há realmente nada de novo.


[D 5a, 6]

O último texto de Blanqui, escrito em sua última prisão, permaneceu a meu ver totalmente despercebido até hoje. Trata-se de uma especulação cosmológica. É preciso admitir que, ao primeiro olhar, o texto parece banal e de mau gosto. Entretanto, as desajeitadas reflexões de um autodidata são apenas o prelúdio de uma especulação que não se imaginaria de modo algum encontrar neste revolucionário. Na medida em que o inferno é um objeto teológico, esta especulação pode ser denominada de teológica. A visão cósmica que expõe Blanqui, tomando seus dados à ciência natural mecanicista da sociedade burguesa, é uma visão do inferno — e é, ao mesmo tempo, um complemento da sociedade que Blanqui, no fim de sua vida, foi obrigado a reconhecer como vitoriosa. O que causa um choque é a ausência de qualquer traço de ironia nesse esboço. É uma rendição incondicional, porém, ao mesmo tempo, a acusação mais terrível contra uma sociedade que projeta no céu esta imagem do cosmos como imagem de si mesma. O texto, estilisticamente muito marcante, contém as mais notáveis relações tanto com Baudelaire quanto com Nietzsche. (Carta de 6 de janeiro de 1938 a Horkheimer).

nota[s] do[s] editor[es]
[J.L.; w.b.] Carta de 6 de janeiro de 1938 a Max Horkheimer, in: Briefe, vol. H, ed. org. por Gershom Scholem e Theodor W. Adorno, Frankfurt a. M., Suhrkamp, 1978, pp. 740-743; a passagem encontra-se nas pp. 741-742.