arqui]vos de antropo[logia

[K_04]

[K 4, 1]

Sobre Grandville: “Ele vivia uma vida imaginária sem limites, num domínio prodigioso de poesia primária, entre a visão inábil da rua e os conhecimentos de uma vida secreta de cartomante ou de astrólogo, sinceramente atormentados pela fauna, pela flora e pela humanidade dos sonhos… Grandville talvez tenha sido o primeiro desenhista a dar à vida larvar dos sonhos uma forma plástica razoável. Mas sob essa aparência ponderada surge esse flebile nescio quid que desconcerta e provoca uma inquietude, às vezes bastante constrangedora.” Mac-Orlan, “Grandville le précurseur”, Arts et Métiers Graphiques, 44, 15 dez. 1934, pp. 20-21. O ensaio apresenta <Grandville> como precursor do Surrealismo, e sobretudo do cinema surrealista (Méliès, Walt Disney).

nota[s] do[s] editor[es]
[w.b.] [flebile nescio quid] Tradução: “algo plangente”; cf. Ovídio, Metamorfoses, XI, v. 52.


[K 4,2]

Confronto entre o “inconsciente visceral” e o “inconsciente do esquecimento”, sendo o primeiro predominantemente individual, e o segundo predominantemente coletivo. “A outra parte do inconsciente é feita da massa de coisas aprendidas ao longo dos anos ou ao longo da vida, que foram conscientes e que por difusão entraram no esquecimento… Vasto fundo submarino onde todas as culturas, todos os estudos, todas as diligências dos espíritos e das vontades, todas as revoltas sociais, todas as lutas empreendidas encontram-se reunidas num recipiente informe… Os elementos passionais da vida dos indivíduos se retiraram, extinguiram-se. Subsistem apenas os dados provenientes do mundo exterior, mais ou menos transformados e digeridos. E, do mundo externo que é feito esse inconsciente… Nascido da vida social, esse humus pertence às sociedades. A espécie e o indivíduo contam pouco, as únicas referências são as raças e o tempo. Esse enorme trabalho confeccionado na sombra reaparece nos sonhos, nos pensamentos, nas decisões; sobretudo durante os períodos importantes e das reviravoltas sociais, ele é o grande fundo comum, reserva dos povos e dos indivíduos. A revolução e a guerra, como a febre, acionam melhor seu movimento… Estando ultrapassada a psicologia individual, recorramos a uma espécie de história natural dos ritmos vulcânicos e dos cursos d’água subterrâneos. Nada há na superfície do globo que não tenha sido subterrâneo (água, terra, fogo). Não há nada na inteligência que não tenha sido digerido e que não tenha circulado nas profundezas.” Docteur Pierre Mabille, “Préface a l’Éloge des Préjugés Populaires”, Minotaure, II, n° 6, inverno de 1935, p. 2.


[K 4, 3]

“0 passado mais recente apresenta-se sempre como se tivesse sido destruído por uma série de catástrofes.” Wiesengrund, em uma carta <de 5 de junho de 1935>

nota[s] do[s] editor[es]
[R.T.] Esta carta não se conservou, cf., no entanto, Adorno, Gesammelte Schriften, vol. IV, Minima Moralia, Frankfurt a. M., 1980, p. 55; e vol. III, Max Horkheimer e Th. W. Adorno, Dialektik der Aufklärung, Frankfurt a. M., 1981, p. 309.


[K 4, 4]

A propósito das memórias de juventude de Henry Bordeaux: “Em resumo, o século XIX transcorria sem parecer absolutamente anunciar o século XX.” Andre Thérive, “Les livres”, Le Temps, 27 jun. 1935.


[K 4a, 1]

A brasa queima em tuas pupilas
E tu reluzes como um espelho.
Tens patas, tens asas,
Minha locomotiva de dorso negro?
Vejam ondular sua crina,
Ouçam seu relinchar,
Seu galope é um rufar
De artilharia e de trovão.

Refrão

Dá aveia a teu cavalo!
Selado, freado, apita! E avancemos!
A galope, sobre a ponte, sob o arco,
Corta montanhas, planícies e vales:
Nenhum cavalo é teu rival.

Pierre Dupont, “Le chauffeur de locomotive”, Paris (Passage du Caire).


[K 4a, 2]

“Do alto da torre da Notre-Dame, contemplei ontem a imensa cidade. Quem construiu a primeira casa, quando desmoronará a última, quando o solo de Paris parecerá o de Tebas e da Babilônia?” Friedrich von Raumer, Briefe aus Paris und Frankreich im Jahre 1830, vol. II, Leipzig, 1831, p. 127.


[K 4a, 3]

Notas de D’Eichthal sobre o projeto da “cidade nova” de Duveyrier. Elas se referem ao templo. É significativo que o próprio Duveyrier diz: “Meu templo é uma mulher!”… A réplica de D’Eichthal: “Penso que haverá no templo o palácio do homem e o palácio da mulher; o homem irá passar a noite na casa da mulher e a mulher virá trabalhar durante o dia na casa do homem. Entre os dois palácios ficará o templo propriamente dito, o lugar da comunhão do homem e da mulher com todas as mulheres e com todos os homens; e ali o casal não repousará nem trabalhará sozinho… O templo deve representar um andrógino, um homem e uma mulher… A mesma divisão deverá se reproduzir na cidade, no reino, na terra inteira: haverá o hemisfério do homem e o da mulher.” Henry-René d’Allemagne, Les Saint-Simoniens 1827-1837, Paris, 1930, p. 310.