arqui]vos de antropo[logia

[S_09]

[S 9, 1]

O luto que o outono desperta em Baudelaire. E, a época da colheita, a época em que as flores se desfazem. 0 outono é invocado por Baudelaire com particular solenidade. Ao outono dedica os versos que talvez sejam os mais melancólicos de seus poemas. A respeito do sol diz o seguinte:

Ele “manda as colheitas crescerem e amadurecerem
No coração imortal que sempre quer florir!”

Com a figura do coração que não quer dar frutos, Baudelaire deu seu veredito sobre o Jugendstil muito antes de seu surgimento.

nota[s] do[s] editor[es]
[J.L.] Baudelaire, OC II, p 83 (“Le Soleil”).


[S 9, 2]

“Esta procura pela minha casa … foi o meu castigo… Onde está — minha casa? Eis o que pergunto e procuro, e procurava, e não encontrei. Ó eterno todo lugar, ó eterno nenhures.” Cit. de Zarathustra, em Löwith, Nietzsches Philosophie der ewigen Wiederkunft, Berlim, 1935, p. 35 (cf. epígrafe de Rilke, S 4a, 2), ed. Kröner, p. 398.


[S 9, 3]

Pode-se supor que na linha típica do Jugendstil não raro se encontram — reunidos em uma montagem da imaginação — o nervo e o fio elétrico (e que o sistema nervoso vegetativo em particular, como forma limítrofe, serve de intermediário entre o mundo do organismo e a técnica). “O culto aos nervos do fin-de-siècle preservou esta imagem telegráfica, e a respeito de Strindberg, sua segunda mulher, Frida…, escreveu que seus nervos eram tão sensíveis à eletricidade da atmosfera que uma tempestade se transmitia a eles como que por fios telegráficos.” Dolf Sternberger, Panorama, Hamburgo, 1938, p. 33.


[S 9, 4]

No Jugendstil, a burguesia começa a confrontar-se com as condições não ainda de seu domínio social, mas de seu domínio sobre a natureza. A percepção destas condições começa a exercer uma pressão sobre o limiar de sua consciência. Daí o misticismo (Maeterlinck) que procura atenuar essa pressão; mas daí também a recepção de formas técnicas no Jugendstil, p. e., o espaço vazio.


[S 9a, 1]

O capítulo de Zaratustra intitulado “Unter Töchtern der Wüste” [“Entre filhas do deserto”] é revelador, não apenas porque aparecem em Nietzsche as meninas florais — um tema importante do Jugendstil mas também pela afinidade entre Nietzsche e Guys. A passagem “profundas, mas sem pensamentos” descreve exatamente a expressão das prostitutas neste último.

nota[s] do[s] editor[es]
[ R. T] Nietzsche, Werke in drei Bänden, ed. org. por K. Schlechta, vol. II, Munique, 1973, p. 540.


[S 9a, 2]

O ponto culminante da organização técnica do mundo consiste na liquidação da fertilidade. O ideal de beleza do Jugendstil é constituído pela mulher frígida. (O Jugendstil vê em cada mulher não Helena, e sim Olímpia.

nota[s] do[s] editor[es]
[J.L.] Alusão às personagens de Helena, do Fausto II, de Goethe, e de Olímpia, do conto “0 Homem de Areia”, de E. T. A. Hoffmann.


[S 9a, 3]

O indivíduo, o grupo, a massa — o grupo é o princípio do gênero; o isolamento do indivíduo é típico do Jugendstil (cf. Ibsen).


[S 9a, 4]

O Jugendstil é um progresso na medida em que a burguesia se aproxima dos fundamentos técnicos de seu domínio sobre a natureza; um retrocesso, na medida em que lhe falta a força para ainda olhar o cotidiano de frente. (Isto só é possível sob a proteção da mentira da vida. ) – A burguesia sente que não tem muita vida pela frente, uma razão a mais para ela querer ser jovem. Assim, ela imagina para si uma vida mais longa, ou pelo menos uma bela morte.

nota[s] do[s] editor[es]
[E/M] [mentira da vida] Cf. Henrik Ibsen: “the saving lie … is the stimulating principle of life, … to keep life going”, The Wild Duck [O Pato Selvagem] in: Hedda Gabler and Other Plays, Harmondsworth, Penguin, 1982, pp. 243-244.


[S 9a, 5]

Segantini e Munch; Margarete Böhme e Przybyszewski.


[S 9a, 6]

A filosofia do “Como Se” de Vaihinger é o toque de agonia do Jugendstil.

nota[s] do[s] editor[es]
[R.T.] Cf. Hans Vaihinger, Philosophie des Als-Ob (1911).


[S 9a, 7]

“Com as primeiras obras de Hennebique e dos irmãos Perret, um novo capítulo se abriu na história da arquitetura. O desejo de evasão, de renovação, exprimia-se, aliás, nas tentativas de escola do Modern Style, que fracassou deploravelmente. Parece que esses autores torturaram a pedra até seu esgotamento e prepararam com isso uma reação feroz em favor da simplicidade. A arte da arquitetura devia renascer em formas serenas pela exploração de materiais novos.” Marcel Zahar, “Les tendances actuelles de l’architecture”, in: Encyclopédie Française, XVII, p. 17. 10-3/4.